14 April 2007

na terra do vulgar

Há um quarto onde ela convive com a dor que dorme debaixo da cama, que a obriga a dormir de costas. Há a vida naquela cadeira do trabalho, de horas infinitas. E há a vida dos sonhos pesados de tanta raiva.
Não ama quase nada desses sonhos, não ama o peso da raiva, mas há linhas que a cosem àquela cadeira e há bolas de cotão que se vão formando na língua, por esse motivo já não fala. Melhor assim, pois sabe agora quando se aproximam passos vindos detrás, dado o aumento da capacidade auditiva de tanto silêncio em seu redor.
Eu digo-lhe: -Se deixares crescer a franja até mais não, vais ver que nunca mais ninguém te encontra e quando sufocares de tanto cotão na boca, lembra-te da cor que escolhi para a linha com que te cosi à cadeira. Lembra-te de que és aquilo que eu fiz de ti. Um ser de nada, com um quase de alguma coisa.
Nada de original, bastante vulgar até.

2 comments:

borrowing me said...

kay,
que maravilhoso!
já tinha saudades de poder comentar os teus textos.
este em particular até parece de certa forma me estar a descrever a mim...

bjs

rob said...

aaaaaaaaaaaaaaah! pode-se comentar!